Tenho saudades do tempo em que eu criava personagens e me vestia delas. Tecia uma paisagem abstrata e lançava-me nela de braços abertos, sem sequer pensar se saíria viva no final. Tudo o que eu visualisava era feito de contrastes onde o negro se destacava por ser a cor do meu arco-íris pessoal. O medo era para mim uma gargalhada rebelde e um dedo levantado. Simplesmente não existia essa palavra no meu dicionário privado...
Neste momento esta essência continua presente em mim, no entanto tenho saudades daquele meu desprezo pela responsabilidade, daquele bocejar de tédio longo e demorado por qualquer tipo de regra que estivesse a ser imposta á minha consciência e daquelas paixões desvairadas por tudo o que me fazia sorrir, uma sombra, um gato, um som de viola na noite, o cheiro do luar, um beijo proibido, cartas recebidas com confissões de sentimentos avassaladores e por aí...
Olho agora em volta e vejo caixas e caixas guardadas com recordações de tempos idos, bocados de magia, recheadas dos seres que durante a minha vida me foram preenchendo a alma com amor...
Sei que a realidade é fictícia, tudo se esvai, tudo se dilui no tempo. Há que agarrar com força o momento, vê-lo com um olhar límpido, voar com ele para além do óbvio, fugindo do fútil e conservá-lo como precioso e irepetitível.
Olho para trás e sei que nada mudou em mim. Nem mesmo esta vontade tremenda de alcançar o infinito.
Foto: http://www.deviantart.com/deviation/45475375/

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